Devo ter ficado uns bons segundos a olhar para os olhos azuis de Rui, sem saber o que fazer.
“Marisa, reage.”
Abano a cabeça, para afastar o choque. Vou buscar um sorriso a algures dentro de mim.
- Ahh … Olá. Eu sou a Marisa.
Não tivemos tempo para continuar a conversa. Começam a surgir pedidos nas outras mesas, vem gente ao balcão, dou por mim entre bebidas e mesas. Olho em volta à procura de auxilio, mas da Carla, nada eu sei, não a vejo.
“Onde será que ela se meteu?”
Continuo a correr de um lado para o outro. Sempre que entro no balcão, o meu olhar cruza-se com o de Rui, o que me deixa um pouco atordoada. E por cada vez que isso acontece, ele sorri para mim, com a expressão mais divertida do mundo, como quem goza o momento.
Finalmente chega a hora de fechar. Os clientes começam a sair. Vou ter com Bruno, avisa-lo de que pode ir. Mas Bruno diz-me que não e aponta para o balcão. Rui continua sentado no mesmo banco, não parece ter intenção de sair tão cedo.
- As amigas dele já foram.
Observo Rui uma vez mais. Não parece dar conta que tanto eu como Bruno falamos dele. Começa a despertar-me uma certa curiosidade.
- Bruno, podes ir. Eu espero que ele saia.
Bruno despede-se de mim com um beijo na face e sai. Vejo-o ir, deixo escapar um sorriso.
Volto ao balcão sem entrar neste. Sento-me no banco ao lado do de Rui e olho para ele. Ele desvia o olhar por momentos, fixando o seu olhar em mim. Mas logo volta a olhar para o copo, entretido. Falo a medo, na tentativa de quebrar o gelo.
- Sabes que já fechei.
- Sei. Queres que vá?
“Queres, Marisa?”
Fico sem responder por momentos. Não consigo decifrar o que sinto. Rui tem uma aura que me atrai e ao mesmo tempo me repele. Parece-me indiferente e interessante em simultâneo.
- Queres ir?
Não obtenho resposta. Rui levanta-se e começa a dirigir-se à saída. “Mas o que é que fizeste, Marisa?”.
Vejo-o afastar-se de mim, sem conseguir reagir. Apodera-se de mim uma sensação de perda inexplicável, forma-se um nó na garganta, quero correr e impedi-lo de sair, mas as minhas pernas não se movem.
Rui alcança a porta de saída. Olha para mim como quem se despede, mas não sou capaz de corresponder. Viro-me no banco, fico de costas para a saída. Oiço a porta bater. “Já se foi.”
Apoio o cotovelo no balcão e encosto o queixo ao pulso. Por alguma razão culpo-me pelo sucedido.
“Continua. Fechas sempre a porta às oportunidades que te surgem.”
Silêncio.
Do nada, sinto algo que me puxa pelo braço e me faz levantar. Em fracções de segundo sinto uns lábios que me beijam, umas mãos que me pegam, um aroma que me apaixona.
Encosta-me à parede, a minha língua enlaça na dele, uma mão passa por baixo da minha camisola. E minha boca deixa-se levar pelo gosto de quem me beija, meu corpo segue o ritmo de quem o leva, o calor do seu toque arrepia a minha pele antes gelada.
Apercebo-me então que nem sei quem é o individuo que me agarra. Tento soltar-me, afasto-o de mim e deixo meus olhos abrirem.
E de novo aquele olhar.
- Rui.